Beim Website-Interview in Sao Paulo.
“In Brasilien gibt es Fremdenfeindlichkeit, Rassismus. Es fehlt Bewußtsein dafür, daß man eine solidarische Gesellschaft aufbauen müßte. Ich habe etwas Hoffnung, bin aber desillusioniert. Denn man sieht von Jahr zu Jahr, daß sich die Dinge hier nicht ändern. Alles bleibt im immergleichen Zustand. Die brasilianische Demokratie ist krank. Eine der Säulen der Demokratie, der freie, mündige, kritische, bewußte Bürger, existiert in Brasilien nicht. In den letzten zweihundert, dreihundert Jahren hat man eine unkritische Masse geschaffen - unfähig, zu entscheiden. Ich bin Demokrat. Unsere Eliten sind immer kulturloser, ungebildeter. Niemand mag schlechtes, verdorbenes Essen - doch schlechte Informationen schlucken alle massenweise und völlig unkritisch. Wir sehen eine Verarmung des Kulturniveaus der Menschheit - ich fühle das extrem schmerzhaft. Schließlich war der Zugang zu Kultur noch nie so leicht wie heute. Alles ist leichter greifbar, ob gute Bücher oder gute Musik - doch man nutzt es nicht. Ein interessanter Aspekt - die Scheinheiligkeit in den persönlichen Beziehungen in Brasilien, die vieles verdeckt und versteckt. Wir Brasilianer übertreiben darin - entfernen damit den anderen. Der Brasilianer pflegt eine ferne, distanzierte Nähe, wie ich es nenne. Es scheint nur so, als ob eine Person einem sehr nahe ist - doch sie ist es nicht, sie ist weit weg. Großes Ziel, großer Konsumwunsch des Brasilianers ist jener american way of life unserer Eliten. Unglücklicherweise wird in Brasilien der einheimische Intellektuelle nur sehr selten geschätzt, hier fehlt intellektueller Dialog. Da man den Intellektuellen wenig Wert beimißt, kommunizieren sie wenig untereinander, führen ein bestimmtes Inseldasein. Einstein hätte seine Relativitätstheorie heute wohl nie publiziert, da er bei den Fachzeitschriften-Boards nicht durchgekommen wäre. Da hätte man wohl gesagt, sehr komisch, nehmen wir nicht, kommt nicht rein ins Blatt. In der Kunst haben wir dieses Problem mit den Kuratoren. Das ist gravierend - willkürliche Kriterien, Segregation - als Folge das Immergleiche. Wie läufts denn in den Medien: New York Times, Economist haben dies und das gesagt - also sagen wir das auch, so läufts doch. Deshalb ist heute das Internet so wichtig, um diese Einseitigkeit, dieses Schema zu umgehen. Die Rolle der Nachrichtenagenturen ist bedenklich, oft passierte doch vor Ort ganz anderes - Pressemagnaten kontrollieren die Information. Ich gab bereits Interviews, wonach man ganz anderes druckte, als ich gesagt hatte. Und worauf ich von anderen Experten beschuldigt wurde, Blödsinn zu verbreiten. Ich mußte dann wieder öffentlich klarstellen, ganz anderes gesagt zu haben. Doch solche Risiken muß man eingehen. Immer wird es schlechte Editoren, Manipulierer geben. Manche Leute entschieden deshalb, nichts mehr zu sagen. Ich fordere meine Kollegen stets auf: Wenn ihr es nicht aussprecht, wer wird es dann tun? Der Fußballer, der Pagodesänger, der schlechte Politiker, der jede Chance zum Reden sofort nutzt? Wenn wir schweigen, beherrschen diese Leute die Szene. Deshalb dürfen wir auch Risiken nicht scheuen!”
Beispiele banalster Art für auffällige Passivität lassen sich in Brasilien täglich überall beobachten: Selbst in Sao Paulos City stehen die Menschen häufig an den “Schnellkassen” der Supermärkte in über hundert Meter langen Schlangen, warten brav über eine halbe Stunde lang - dagegen zu protestieren, daß nur etwa die Hälfte der Kassen besetzt ist, fällt niemandem ein. In Mitteleuropa würden die Supermärkte bereits aus Image-und Effizienzgründen dafür sorgen, daß die Kunden rasch bezahlen können. Gleiches gilt in Sao Paulo für den absurd schlecht organisierten Nahverkehr - Proteste gegen die enormen Wartezeiten, den hohen Verlust an Freizeit sind unüblich.

Scheiterhaufen “microondas” - immer wieder von Zeitungen abgebildet, Teil der Gewaltkultur-Normalität.
Die Mittelschicht: http://www.hart-brasilientexte.de/2008/08/07/wie-tickt-eigentlich-brasiliens-mittelschicht-die-classe-media-ein-genialer-song-von-max-gonzaga-auf-youtube/#more-675
Text zu Olympia-Bewerbung Rio de Janeiros: http://observatoriodoesporte.org.br/ouro-de-tolo-olimpico/

Weitere Texte von Dr. Claudio Guimaraes dos Santos, veröffentlicht in Brasiliens größter Qualitätszeitung “Folha de Sao Paulo”.
TENDÊNCIAS/DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br A era das múmias CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS
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Múmias de todas as classes, deixai de vos rebelar contra o destino! Conformai-vos com a finitude irremediável dos homens, do universo |
O PASSADO , não há dúvida, é muito sedutor, já que se deixa “reescrever” à vontade, sem maiores compromissos.
São provas disso as confissões que se fazem a sacerdotes e terapeutas: nelas, os erros se disfarçam de acertos e os fracassos reluzem como sucessos. (Quantos anos de terapia ou de culto não são, às vezes, necessários para que um homem se reconheça como é, moderando o teor fantasista e benevolente dos seus relatos!…) São também evidências da maleabilidade do passado os revisionismos com que topamos, amiúde, em alguns livros de história, em que bandidos e assassinos contumazes são transmutados -como que por encanto!- em exemplos edificantes de heróis martirizados (e vice-versa), ao sabor puro do viés ideológico dos historiadores.
Mais que tendência ligeira, o apego às coisas que já se foram é traço saliente da nossa própria humanidade: do animismo rudimentar à mais elaborada religião, trata-se sempre dos mortos -ainda que lhes chamemos “deuses”- e dos rituais mais ou menos complexos que lhes são devidos.
Tal apego, todavia, pode também vir à luz de maneira patológica: seja como fixação insensata no passado e em tudo que o evoque -tradições, objetos, ancestrais-, seja como desejo (paradoxal) de desfrutar uma eterna juventude, entretendo-se, sem descanso, com “novidades” -um desejo no qual a atração doentia pelo “velho” é substituída, compensatoriamente, pela sede insaciável do “novo”.
Um exemplo evidente, ainda que nem sempre reconhecido, de fixação malsã pelo passado é a tendência demasiado preservacionista que, já há algumas décadas, vem transformando alguns países do “Ocidente desenvolvido” num verdadeiro “paraíso dos museus”. Essa tendência extravasou, recentemente, os limites do “mundo civilizado”, atingindo, entre outras “periferias”, a cobiçada Amazônia.
Após terem museificado os seus próprios territórios, alguns ecofilantropos querem, agora, semear os “tristes trópicos” de incontáveis “museus a céu aberto”. Buscam, assim, transformar a terra alheia em “patrimônio da humanidade” para seu uso (quase) exclusivo, onde possam dar vazão, durante as férias, a anacrônicos devaneios rousseaunianos, retornando, depois, para o conforto tecnológico dos seus lares.
Um pouco mais e será só para esses novos Stings (e suas modernas filmadoras) que os nossos pobres indígenas -condenados, sem escolha, a um eterno arcaísmo- repetirão os seus monótonos rituais, enclausurados em imensas redomas verdejantes.
Enquanto isso, nos cinturões de favelas que estrangulam as capitais brasileiras, milhões de indivíduos -igualmente cidadãos- continuarão mergulhados na miséria, espremidos entre o desprezo dos poderosos e a “negligência benigna” do Estado.
Já no caso da negação doentia do envelhecimento, era fatal que, nesta época tão epidérmica -tudo é “questão de pele”-, tal recusa consistisse no esforço em perpetuar a aparência, já que é ela que denota, de modo direto e visível, a indesejada passagem dos anos. E são as “celebridades” -atrizes, políticos, apresentadores de TV, profissionais liberais, intelectuais- os que mais padecem desse mal.
Assistimos, assim, ao desfile deprimente de rostos inexpressivos, de olhos que não se fecham, de bocas que não sorriem, de ridículos implantes capilares, de magrezas cadavéricas, de peitos emborrachados, de bundas que extravasam a cintura das calças como as bordas de um “soufflé”.
Ignoro se tais caricaturas, que se apegam à juventude como a criança à chupeta, terão tanto sucesso como os faraós do antigo Egito. Diga-se, porém, a seu favor que, com o auxílio da cosmética e da plástica, elas já lograram, pelo menos, mumificar-se ainda em vida!
Infelizmente, não penso que possamos evitar que tipos como os historiadores revisionistas ou os ecofilantropos continuem a perseguir os seus funestos desígnios: seus espíritos, mais do que seus corpos, é que foram mumificados. Sustenta-os, na sua busca, a doce ilusão de estarem certos. Todavia é possível que, com as outras múmias, nós tenhamos mais sucesso… Quem sabe ainda não é tempo para despertá-las? Dirijamo-lhes, pois, um apelo sincero:
“Múmias de todas as classes, deixai de vos rebelar contra o destino! Conformai-vos com a finitude irremediável dos homens, das ideias, das nações, do universo… de tudo, enfim! Permiti que a vida, no seu fluir misterioso, vos transforme de uma vez em pó! Não tendes nada a perder senão o bolor de vossas ataduras! Múmias do meu Brasil, abandonai, para sempre, os vossos sarcófagos!”.CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS, 48, médico, psicoterapeuta e neurocientista, é escritor, artista plástico, mestre em artes pela ECA-USP e doutor em linguística pela Universidade de Toulouse-Le Mirail (França). TENDÊNCIAS/DEBATES“Vox populi, vox Dei?” CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS
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Um criminoso de “gola branca” e um assassino: por que o povo reage de maneira tão diversa perante esses dois tipos? |
A S TONELADAS de informações de baixa qualidade, “repercutidas” dia e noite, sobre a trágica morte da pequena Isabella não permitem aos que desejam preservar o senso crítico senão concluir que o sacrifício do intelecto é o alto preço que pagamos pela facilidade com que as notícias circulam no mundo contemporâneo.
De um lado, está o vergonhoso mercantilismo dos “meios de comunicação”, bem mais preocupados em vender o seu “peixe” do que em cumprir o importante dever de informar. De outro, temos a cólera da multidão, ainda ontem tão pacata, que se despe, num segundo, da sua casca de civilidade e clama pelas cabeças dos suspeitos.
Para explicar a vileza dos abutres da imprensa, que contabilizam, sem culpa, os seus lucros sobre o corpo (ainda quente) de Isabella, podemos lançar mão de Adam Smith ou de Marx. Já a fúria incontrolável das massas exige, para ser entendida, que recorramos a Freud.
Se possível, esqueçamos, por um momento, as novelas, as partidas de futebol, as revistas de fofoca, os programas de auditório apelativos, toda a miríade, enfim, de irrelevâncias com que nos “brinda” a mídia onipresente e tentemos pensar um pouco levantando algumas questões.
Por que a multidão não se volta, com a mesma ira, contra os políticos corruptos, os empresários desonestos, os “religiosos” picaretas, os fraudadores impudentes ou até mesmo -tristes tempos!- contra alguns “magníficos” reitores? Por que não se montam “campanas” com banheiros químicos também na frente das suas casas? Por que não se almeja linchar tais criminosos de “mãos limpas” como se quer amiúde fazer com infanticidas, estupradores e pedófilos?
Será que os ditos crimes de “colarinho branco” -”limpos” só no nome- acarretam menor dano à sociedade do que os atos isolados, certamente hediondos, de alguns poucos indivíduos, como pensam não só os leigos, mas também legisladores e juristas?
Não creio.
Um assassino, mesmo “produtivo”, só consegue destruir algumas vidas, precisamente as que se colocarem ao alcance da mira. Um criminoso de “gola branca”, porém, dependendo do tamanho do “golpe”, afetará a vida de milhões. Apenas, ele o fará de maneira lenta, menos cruenta, mais palatável à nossa época digital, esmigalhando os futuros de um monte de Isabellas de uma forma “quase indolor”.
Mas, se é assim, por que o povo reage de maneira tão diversa perante esses dois tipos de criminosos? As respostas são muitas. Mencionarei a que julgo a mais relevante e que é também, por isso mesmo, a que menos agrada ao senso comum.
As pessoas, de um modo geral, sentem-se “mais à vontade” com os “criminosos de gravata”. Pensamentos como “a carne é fraca”, “eles roubam, mas fazem” e, é claro, o famoso “no lugar deles eu faria o mesmo” acabam por criar uma empatia profunda com tais delinqüentes, tornando-os, muitas vezes, merecedores de sincera admiração. Tal se dá especialmente no Brasil, onde a “esperteza do malandro” é louvada em prosa e verso.
Já no caso dos crimes hediondos, custa-nos aceitar que também nós podemos cometê-los. E, a não ser que o indivíduo disponha de um real autoconhecimento, obtido a duras penas pela análise corajosa do seu íntimo, jamais admitirá que sente, dormindo ou acordado, todo tipo de desejos inconfessáveis, o que inclui os impulsos infanticidas, parricidas, sadomasoquistas, pedófilos, homossexuais e tudo o mais que a sociedade costuma, em uma época ou outra, abominar.
Daí que essas pessoas que tanto se apressam em apedrejar não pretendem, ao contrário do que crêem, obter a justa punição para os culpados. Buscam, antes, evitar o encontro doloroso com a face mais horrenda da natureza humana, sem o qual nenhuma lucidez é possível.
Mas, compreende-se… É tão mais agradável seguir inconsciente desse fato, afundando sempre mais na doce mediocridade das novelas, das partidas de futebol, das revistas de fofoca…
Infelizmente para todos nós, as pessoas inconscientes constituem, desde sempre, a grande maioria. Diante disso, fica fácil imaginar o que seria, por exemplo, dos brasileiros se passássemos a ser governados por meio de plebiscitos, num grotesco pesadelo rousseauniano, tal como defendem alguns políticos totalitários que fingem ser democráticos.
“Vox populi, vox Dei?” Definitivamente não. Precisamos, antes, ser mais humildes, reconhecendo que ainda estamos, enquanto espécie, muito longe de falarmos e de agirmos como deuses. Mas, afinal, o que isso importa, se o show tem que continuar?
TENDÊNCIAS/DEBATES
Aborto, embriões e o mea-culpa de Janine CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS
Ironicamente, os principais responsáveis por difundir essa imagem distorcida do conhecimento científico são os próprios cientistas
C OM A vinda do papa Bento 16, o debate sobre o aborto, bem como sobre a pesquisa científica com os chamados embriões inviáveis, ganhou o destaque que se esperava. De um lado, vociferam os que se dizem defensores intransigentes da vida (”desde a concepção até o seu inevitável declínio”), um grupo bastante heterogêneo, formado não apenas por cristãos, na sua maioria católicos, mas também por fiéis de outras religiões e até por alguns ateus.
Do outro lado, estão os que se proclamam guerreiros incansáveis na “cruzada” contra o obscurantismo religioso, os que se crêem verdadeiros “portadores da luz” -que não se percam pela soberba…- e, portanto, detentores inquestionáveis do monopólio da razão. Uns e outros, a meu ver, estão certos e errados, muito embora por motivos que todos eles parecem fazer questão de ignorar.
Os que sustentam que as verdades da fé também devem ser levadas em conta sempre que é alterado, de forma relevante, o ordenamento jurídico de um Estado estão certos em fazê-lo. Com efeito, toda lei, para ser realmente legítima, não pode passar ao largo das normas religiosas que norteiam as vidas de milhões de cidadãos, ainda que elas o façam “apenas” de fato, e não de direito. Contudo, uma coisa é levar em conta um determinado ponto de vista; outra, muito diversa, é acatá-lo sem crítica ou ponderação.
Erram, portanto, os que pretendem abusar do princípio metodológico da “escuta ecumênica”, em si mesmo uma importante salvaguarda. Pois não se pode, impunemente, transformá-lo numa espécie de “imperativo totalitário” a serviço de uma única opinião, seja ela a do papa ou a de um Prêmio Nobel. Afinal, as leis que irão disciplinar cada uma dessas duas questões -o aborto e a pesquisa com os embriões inviáveis- terão vigência nacional, aplicando-se, indistintamente, aos seguidores de qualquer credo ou opinião.
Estão certos, por sua vez, os que afirmam que é necessário discutir esses temas polêmicos também à luz dos argumentos científicos e da saúde pública, sopesando, com critério, os aspectos relacionados à proteção da saúde da mulher -no caso da legalização do aborto- ou das perspectivas para o tratamento de moléstias crônico-degenerativas -no caso do aproveitamento dos embriões inviáveis. Estão errados, todavia, quando sustentam, certamente imbuídos de um positivismo ingênuo, que a ciência deve sempre ser tomada como o parâmetro absoluto, como o “fiel da balança do próprio Deus”.
Equivocam-se, portanto, quando descartam qualquer argumento que não reconheçam como “científico”, por julgarem-no desprovido de objetividade, pouco importando o domínio a que se refira. Ao absolutizarem desse modo indevido o poder da ciência, essas pessoas acabam por cometer o mesmo erro que pensavam eliminar, adorando um ídolo no lugar de outro. Ironicamente, os principais responsáveis por difundir essa imagem distorcida do conhecimento científico são os próprios cientistas, muitos deles desprovidos de uma formação filosófica que seja digna desse nome.
Tornam-se, por isso, freqüentemente, meros tecnocratas do conhecimento, mais preocupados com a gestão das “verbas de fomento” e a publicação de resultados em “revistas de impacto” do que com a reflexão sobre a natureza complexa da ciência. Além disso, o próprio fazer científico, como qualquer atividade humana, é transitório e imperfeito e precisa, sim, ser fiscalizado pelos membros da sociedade em que se dá. São eles, aliás, num Estado democrático, os únicos a ter de fato legitimidade para fazê-lo, permitindo ou proibindo comportamentos por meio das leis elaboradas pelos representantes que elegem periodicamente. Abrir mão desse princípio significaria admitir que a práxis científica está fora do alcance de qualquer controle ético, o que me parece absurdo.
É realmente uma pena que os integrantes desses dois grupos não decidam, vez por outra, ponderar -não somente com a razão mas também com o sentimento- sobre as idéias e as crenças que sustentam. Se o fizessem, talvez se tornassem mais humildes e, com isso, mais capazes de reconhecer os seus equívocos. Assim como o fez Renato Janine Ribeiro, tempos atrás, num corajoso e sincero mea-culpa, publicado neste mesmo jornal, que motivou tão intensas reações, precisamente porque foi lúcido.
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Este momento da história é perigoso. Muitos de nós tornam-se tão “civilizados” que nem mais conseguem resistir à barbárie |
OUTUBRO, MÊS em que os ingênuos comemoram crianças e professores, é uma boa época para refletir sobre o triste estado da educação brasileira. Para tanto, será útil examinar de que maneira os principais atores envolvidos entendem esse tema tão complexo.
Há os que vêem a educação como um mero instrumento para a formação de trabalhadores qualificados -de preferência, com pós-doutorado e MBA-, sem os quais é impossível aumentar a produtividade das empresas. Esses “devotos do progresso” não desejam, portanto, formar indivíduos complexos e transdisciplinares, mas apenas “aleijões especialistas” que se encaixem sem folgas no circuito produtivo-consumista. Há, porém, os que defendem uma espécie de “novo humanismo”, concebido como uma reação à visão utilitarista do conhecimento que caracteriza o primeiro grupo. Infelizmente, a maior parte desses “neo-humanistas”, entre os quais há muitos educadores, afunda-se cada vez mais num misto de relativismo pós-moderno e rebeldia sem causa, mostrando-se ainda órfã dos movimentos contestatórios dos anos 1960/1970. Por terem confundido -tolamente- autoridade com autoritarismo, esses “velhos revolucionários” já não sabem o que dizer aos professores quando estes são grudados -de verdade!- em suas cátedras ou atingidos por bofetadas (nada democráticas) de adolescentes quadrilheiros que desejam somente direitos e nenhum dever, constituindo, ironicamente, o resultado mais visível das pedagogias libertárias…
Há, por fim, os que parecem “estar pouco se lixando” para a questão da educação. Trata-se, todavia, somente de aparência…
Exibindo uma alta escolaridade, os membros desse terceiro grupo -banqueiros fraudulentos, políticos desonestos, religiosos impudentes, empresários espertalhões- têm profunda nostalgia do tempo em que o Brasil era “uma ilha de letrados num mar de analfabetos”. Por isso, não medem esforços para perpetuar o estado de ignorância do “resto” da população, já que as suas vidas nababescas dele dependem crucialmente.
Além disso, por meio de leituras abusivas do nobre artigo 5º da Constituição de 1988 -das quais somente os “grandes letrados” são capazes-, essa gangue vai ficando sempre impune e cada vez mais poderosa, dando um exemplo “edificante”, sobretudo aos cidadãos mais jovens.
Alheios a tudo isso, lá no ventre da “linha de montagem” em que muitos brasileiros são forjados, um punhado heróico de professores -despreparados e mal pagos- continua crendo que ensina a um contingente imenso de alunos, que “colaboram” com os mestres acreditando que aprendem.
Sem falar, é claro, da multidão de governantes “prestimosos” que fingem que se importam…
Nessa tragédia de erros mais ou menos voluntários, acabamos por perder, salvo honrosas exceções, o aspecto essencial do processo educativo: formar indivíduos equilibrados, responsáveis, solidários, criativos, conscientes das imperfeições da natureza humana, mas ainda assim desejosos de construir um sentido para as suas vidas que seja mais denso do que a acumulação de riqueza ou do que a busca desenfreada pela fama.
E o resultado dessa perda crucial, nós o vemos diariamente: um número sempre maior de pessoas desprovidas de coragem para enfrentar o absurdo da existência, agarrando-se a qualquer coisa que lhes permita esquecer a irrelevância das suas vidas; que buscam inutilmente nos outros o que só podem obter em si mesmas e que por isso mergulham num egoísmo malsão, que tudo pede e nada dá, que tudo suga e nada fecunda; que abdicam da lucidez em nome de qualquer credo, perdendo-se no anonimato dos rebanhos e entregando-se, por fim, aliviadas, à redenção da mediocridade.
Espero equivocar-me, mas julgo que vivemos um momento muito perigoso da história mundial, em que a sobrevivência de um pensamento independente e crítico é quase impossível. No caso brasileiro, ao contrário do que se diz, poucas vezes houve um patrulhamento ideológico tão intenso. Apenas ele é, hoje, mais sutil -quase transparente-, já que, graças à “deseducação”, a censura não opera mais “de fora”, mas “de dentro” das cabeças, coadjuvada pelo massacre midiático do politicamente correto.
Muitos de nós tornam-se, por isso, tão “civilizados” que nem mais conseguem resistir à barbárie. Eu lamento, professores e crianças, mas não há muito o que festejar.CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS, 48, médico, psicoterapeuta e neurocientista, é escritor, artista plástico, mestre em artes pela ECA-USP e doutor em lingüística pela Universidade de Toulouse-Le Mirail (França). TENDÊNCIAS/DEBATESDroga! CLÁUDIO GUIMARÃES DOS SANTOS
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Vamos tratar de um assunto espinhoso: a investigação das verdadeiras razões pelas quais as drogas são tão buscadas por nós humanos |
O CRESCIMENTO exponencial do consumo de drogas, que é tanto maior quanto mais amplo for o significado atribuído à palavra, é um dos temas que mais preocupam a sociedade contemporânea. Curiosamente, o quase-consenso entre os especialistas de que a melhor maneira de diminuir esse consumo é o combate sem tréguas ao narcotráfico faz com que muitos deles se esqueçam -ou prefiram se esquecer…- de tratar de um assunto bem mais espinhoso: a investigação das verdadeiras razões pelas quais as drogas são tão buscadas por nós humanos.
Tal negligência parece-me notável, já que é precisamente a imensa demanda por drogas de todos os tipos -do álcool ao ecstasy, passando pelo videogame, pelos cultos fundamentalistas e pelos livros de auto-ajuda, sem esquecer, é claro, o “futebor”- que faz com que elas se transformem num problema tão importante. E por que isso ocorre?
A minha suspeita é que essa investigação só pode ser encetada por quem se disponha a colocar em xeque o próprio ethos consumista e competitivo que anima a sociedade em que vivemos. Mas, para tanto, é preciso coragem, pois balançar o alicerce mais bem protegido da nossa civilização pode trazer conseqüências desagradáveis para a saúde dos que ousarem fazê-lo. E coragem -sinto dizê-lo- é um “bem escasso” em nossos dias…
Tal investigação, evidentemente, não poderá jamais ser realizada com base no utilitarismo objetivista e “industriofílico” que predomina na ciência contemporânea, segundo o qual um “alto índice de produtividade acadêmica” é muito mais relevante do que a qualidade ou a originalidade do que, de fato, é produzido.
Com efeito, o que esperar de uma época em que muitos dos profissionais de saúde que tratam dos usuários de drogas (concebidas como “coisas ruins”) acreditam, de forma ingênua, que as doenças mentais serão, um dia, inteiramente curadas por drogas (concebidas como “coisas boas”)?
O que esperar dos alienistas cibernéticos, dignos êmulos de Simão Bacamarte, que se contentam em rotular o existir humano, incapazes que são de compreendê-lo, “medicalizando-o” até a náusea? Que se comprazem em atulhar de “transtornos mentais” a já abarrotada psicopatologia, na ânsia de adequá-la às exigências da moda e do mercado?
O que esperar desses herdeiros frustros de Paracelso, que são iludidos pelos conglomerados farmacêuticos e vivem sonhando com “pílulas da felicidade” capazes de tratar -para sempre e sem recaídas- o chamado “mal de vivre”, que corrói a humanidade desde Adão (ou desde a australopiteca Lucy, para os que preferem um mito fundador “mais científico” para a nossa espécie)?
O que esperar desses tecnólogos do espírito, que primeiro se convencem de que as pessoas são computadores e depois se surpreendem quando elas agem -e reagem- como seres humanos?
O que esperar desses burocratas da alma, que desconhecem a riqueza conceitual de um Jung, de um Diel, de um Freud; que nada sabem das sutilezas psicológicas de um Stendhal, de um Flaubert, de um Machado; que jamais leram Platão, Hegel ou Heidegger; e que se curvam, por isso mesmo, maravilhados, ao didatismo superficialíssimo da terapia cognitivo-comportamental, essa “sopa” requentada das idéias de Skinner, entremeadas de cognitivismo mal digerido e temperadas com pitadas de neurociência “fashion”? O que esperar de tal visão da natureza humana? Quase nada.
E, todavia, é justamente nessa visão que a sociedade apavorada -e que não sabe mais para onde fugir, porque tem medo de si mesma- pretende jogar as últimas fichas. Incapazes de controlar os cidadãos por meio do famoso poder de polícia, os dirigentes da sociedade encurralada apelam para essa óptica psicofilosófica míope, na esperança vã de que ela possa auxiliá-los a encontrar algum tipo de “solução final” para o problema das drogas.
Buscam, então, eliminar com os traficantes também os incômodos consumidores -que nunca deveriam ter existido!…-, apondo-lhes um rótulo diagnóstico conveniente e relegando-os a alguma “gaveta” taxonômica, da qual, com um pouco de sorte, não sairão jamais, como se fossem lacrados numa (asséptica) câmara de gás…
(Agem, assim, tão tolamente quanto os adultos que hipersexualizam as crianças e depois se queixam da explosão da pedofilia…) Perante tudo isso, as pessoas de bom senso decerto lamentarão o estado deplorável em que nos encontramos. Contudo, não desanimemos! Sejamos “proativos e otimistas”, como aconselham os “gurus” de plantão… Afinal, as coisas sempre podem piorar…
Mas que droga!
Glückszahl und Flugzeugunglück: http://www.hart-brasilientexte.de/2009/06/02/flugzeugungluck-und-jogo-do-bicho-flugnummer447-und-airbustyp330-massiv-als-gluckszahl-ausgewahlt-a-vida-como-ela-e/
« Brasiliens führende Medienzeitschrift “Imprensa” bewertet erstmals diese (Hobby-)Website in einer Kolumne. Leser in rund 90 Ländern. – Bienenfresser, Mai 2009, bei Halle/Saale. »
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