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	<title>Klaus Hart Brasilientexte</title>
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	<description>Aktuelle Berichte aus Brasilien - Politik, Kultur und Naturschutz</description>
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		<title>&#8222;Finanzkrise und Krise des Kapitalismus&#8220; &#8211; katholische Nachrichtenagentur ADITAL.</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Nov 2008 14:46:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Klaus Hart]]></dc:creator>
				<category><![CDATA[Kultur]]></category>
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		<description><![CDATA[Pedro A. Ribeiro de Oliveira * Adital &#8211; Estamos hoje imersos na crise provocada pela &#8222;bolha&#8220; financeira dos EUA. Ela repercute no mundo todo porque o dÃ³lar estadunidense é a moeda padráo para a economia e o comércio mundial. Ninguém duvida da sua gravidade; o que se discute hoje é o caminho a tomar para [&#8230;]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Pedro A. Ribeiro de Oliveira *<br />
Adital &#8211; Estamos hoje imersos na crise provocada pela &#8222;bolha&#8220; financeira dos EUA. Ela repercute no mundo todo porque o dÃ³lar estadunidense é a moeda padráo para a economia e o comércio mundial. Ninguém duvida da sua gravidade; o que se discute hoje é o caminho a tomar para se sair dela.</p>
<p><span id="more-1230"></span>Â Isso implica tanto um diagnÃ³stico correto quanto uma opçáo ideolÃ³gica &#8211; as idéias-força que impulsionam a açáo coletiva. As perguntas-chave sáo: (i) esta é mais uma crise caracterÃ­stica do sistema capitalista, ou se estamos diante do esgotamento de sua capacidade de produzir e distribuir riqueza? e (ii) trata-se de corrigir os excessos do capitalismo, ou de lançar as bases de um sistema alternativo?</p>
<p>Ã‰ evidente que náo hÃ¡ anÃ¡lise de conjuntura neutra. O economista Delfim Netto, por exemplo, embora reconheça a gravidade da atual crise, vÃª nela &#8211; como nas outras 46 crises registradas desde 1790 &#8211; o mérito de forçar os agentes do sistema capitalista de mercado a corrigirem seus erros e exageros, sob pena de serem substituÃ­dos por agentes mais criativos. Segundo seu pensamento, foi a organizaçáo social e econÃ´mica do mercado que &#8222;nos Ãºltimos 150 anos trouxe os homens da Idade da Pedra Ã  Idade da InformÃ¡tica. Eles náo a inventaram. Ela é produto de uma espécie de seleçáo natural produzida pelo prÃ³prio desenrolar histÃ³rico. Foi sendo descoberta pelo homem desde que saiu da Ãfrica, hÃ¡ 200 mil anos, e foi pensada criticamente pelos gregos hÃ¡ pelo menos 2,5 mil anos&#8220;. Sendo conatural ao ser humano, o sistema de mercado náo admite alternativa viÃ¡vel. &#8222;Todas as formas alternativas gestadas até agora por cérebros peregrinos, e executadas por fanÃ¡ticos psicopatas aos quais a sociedade descontente entregou em desespero e descuidadamente o poder, terminaram em tragédia. E as que estáo por aÃ­ infestando a infeliz América Latina, onde a psicopatia é acentuada pela ignorÃ¢ncia, náo seráo exceçáo Ã  regra: sáo apenas pontos fora da curva do processo civilizatÃ³rio&#8220; (1).</p>
<p align="center">Nossa perspectiva sociolÃ³gica, ao contrÃ¡rio, vÃª no sistema capitalista de mercado um produto da histÃ³ria humana. Esboçado nas cidades do norte da ItÃ¡lia desde o século XIII, estruturou-se no &#8222;longo&#8220; século XVI, provocou a &#8222;revoluçáo industrial&#8220; no século XVIII e consolidou-se por meio das revoluçÃµes polÃ­tica e cultural do século XIX. No século XX atingiu a maturidade, ao mundializar-se pelo processo de globalizaçáo. A pergunta, agora, é se ele sobreviverÃ¡ ao século XXI. Ao longo do tempo, náo sÃ³ assumiu diferentes formas &#8211; mercantilista, liberal, imperialista-colonial, de bem-estar social e neoliberal &#8211; como transferiu seus pÃ³los (das cidades italianas para Amsterdá, dali para Londres e depois Nova York). Todas essas mudanças foram acompanhadas de graves crises, em geral resolvidas por meio de guerras.</p>
<p>O que torna a atual crise financeira especialmente preocupante é menos o montante das perdas financeiras e a inevitÃ¡vel recessáo, agora em escala mundial, do que sua conjunçáo com duas outras crises: de energia e de aquecimento global. Isso náo significa que o abalo financeiro náo seja grave. Ao contrÃ¡rio, &#8222;o descolamento dos ganhos financeiros em relaçáo ao sistema produtivo pode ser identificada na comparaçáo do PIB com a quantidade de recursos aplicados em derivativos&#8220; (2). Enquanto o PIB mundial alcançou quase US$ 55 trilhÃµes, em 2007, o volume dos direitos negociados no sistema financeiro mundial chegou a quase US$ 600 trilhÃµes. O mesmo indicador do valor (a moeda expressa em US$) aplica-se a duas realidades muito diferentes: o volume de bens e serviços efetivamente produzidos, e a compra e venda de direitos que sáo repassados sem que nenhum bem tenha sido produzido (por isso, chamados de derivativos).</p>
<p>Para quem negocia, o importante é auferir o lucro monetÃ¡rio, pouco importando se o objeto da negociaçáo é real ou virtual. Pode-se ganhar dinheiro pelo trabalho ou no jogo de azar, mas hÃ¡ uma diferença: o cassino náo produz riqueza. Dado que até pouco antes da crise quem aplicasse seu dinheiro em derivativos obtinha mais lucro do que na produçáo de riqueza, muitas empresas aplicaram suas reservas no mercado financeiro. Auferiram assim lucros fabulosos &#8211; principalmente os bancos, que sáo os intermediÃ¡rios dessas aplicaçÃµes. No momento, porém, em que esses tÃ­tulos perdem sua capacidade de se converter em dinheiro, sobrevém a crise financeira. Sáo trilhÃµes de dÃ³lares que correm o risco de virarem pÃ³. Isso pode representar a falÃªncia de muitas empresas e, consequentemente, desemprego em massa. A ameaça de falÃªncia da General Motors é emblemÃ¡tica, por ser uma empresa-sÃ­mbolo do capitalismo moderno &#8211; &#8222;o que é bom para a GM é bom para os EUA, e vice-versa&#8220;.</p>
<p>Foi para evitar essa catÃ¡strofe financeira que os Bancos Centrais dos paÃ­ses ricos intervieram, aportando dinheiro para se liquidarem os negÃ³cios e assim segurarem um mÃ­nimo de credibilidade sem a qual desmorona toda a economia monetÃ¡ria (pois o dinheiro sÃ³ tem valor enquanto se acredita em seu poder de comprar bens ou serviços). Neste sentido, é uma medida de emergÃªncia, que alivia tensÃµes e permite que se busque outra saÃ­da que náo seja a guerra. Mas essa medida precisa ser criteriosa para que os jogadores irresponsÃ¡veis náo sejam reembolsados Ã s custas de quem trabalha, e deve ser acompanhada de uma nova regulaçáo do sistema de mercado. Uma possibilidade é retomar a proposta feita em 1972 pelo prÃªmio Nobel Tobim, de impor uma taxa de 0,1% a todas as transaçÃµes financeiras, de modo a reduzir drasticamente os ganhos especulativos (grandes somas aplicadas em curto ou curtÃ­ssimo prazos) sem por isso onerar substancialmente os investimentos produtivos. Ou seja, hÃ¡ meios para que seja superada a crise financeira, mas eles exigem sacrifÃ­cios. O que se discute, portanto, é sobre quem recairáo esses sacrifÃ­cios&#8230;</p>
<p>O que náo tem sido trazido Ã  baila, é o que a teoria econÃ´mica liberal classifica como &#8222;externalidades&#8220;: os efeitos náo-econÃ´micos dos processos econÃ´micos regidos pela lÃ³gica do lucro capitalista. Por náo incluir em seus cÃ¡lculos de custo externalidades como produçáo de lixo, desperdÃ­cio de matérias-primas e energia, destruiçáo da biodiversidade, degradaçáo dos solos e das Ã¡guas, doenças, exclusáo social e revolta dos oprimidos, o capitalismo conseguiu produzir uma enorme quantidade de riqueza. O problema, agora, é que, a se manter a mesma lÃ³gica econÃ´mica, as externalidades se voltaráo contra o sistema e impediráo seu funcionamento. Os graves problemas ambientais, energéticos e humanos (como a violÃªncia e a miséria) estáo hoje a apontar que o sistema capitalista de mercado estÃ¡ prestes a esgotar sua capacidade de produzir riqueza.</p>
<p>Falando para a ONU, no &#8222;Painel sobre a crise financeira&#8220;, F. Houtart afirma que é preciso mudar a prÃ³pria lÃ³gica econÃ´mica e &#8222;privilegiar o valor de uso sobre o valor de troca, o que significa outra definiçáo da economia: náo mais a produçáo de um valor agregado, fonte de acumulaçáo privada, mas a atividade que assegura as bases da vida material, cultural e espiritual dos seres humanos através do mundo&#8220;. A partir desse momento, o mercado servirÃ¡ de regulador entre a oferta e a procura, em vez gerar lucro para quem tem dinheiro. Seráo combatidos o desperdÃ­cio de matérias primas e energia, e a destruiçáo da biodiversidade e da atmosfera, e seráo contabilizadas e consideradas as externalidades ecolÃ³gicas e sociais. Isto porque, continua o velho mestre, &#8222;privilegiar o valor de uso provoca a náo mercantilizaçáo dos elementos indispensÃ¡veis Ã  vida &#8211; sementes, Ã¡gua, saÃºde, educaçáo -; o restabelecimento dos serviços pÃºblicos; a aboliçáo dos paraÃ­sos fiscais e do sigilo bancÃ¡rio; a anulaçáo das dÃ­vidas odiosas dos Estados do Sul; o estabelecimento de alianças regionais sobre a base de complementaridade e de solidariedade; a criaçáo de moedas regionais; bem como outras medidas em favor da multipolaridade. A crise financeira constitui a ocasiáo Ãºnica de pÃ´r estas medidas em aplicaçáo&#8220; (3).</p>
<p>Houtart termina sua fala indicando quem serÃ¡ portador deste projeto: &#8222;o novo ator histÃ³rico, portador dos projetos alternativos, é hoje plural. Sáo os trabalhadores, os camponeses sem terra, os povos indÃ­genas, as mulheres primeiras vÃ­timas das privatizaçÃµes, os pobres das cidades, os militantes ecologistas, os migrantes, os intelectuais ligados aos movimentos sociais. A sua consciÃªncia de ator coletivo começa a emergir. A convergÃªncia das suas organizaçÃµes estÃ¡ apenas no seu começo e ainda carece frequentemente de ligaçÃµes polÃ­ticas. Certos Estados, notadamente na América Latina, jÃ¡ tÃªm criado condiçÃµes para as alternativas se realizarem. A duraçáo e a intensidade das lutas destes atores sociais dependerÃ¡ da rigidez do sistema existente e da intransigÃªncia dos seus protagonistas&#8220;.</p>
<p>Neste momento, ganha enorme importÃ¢ncia o prÃ³ximo FÃ³rum Social Mundial, a realizar-se em Belém do ParÃ¡, de 27 a 31 de janeiro do prÃ³ximo ano. Por ser um espaço privilegiado de reflexáo, debates e troca de experiÃªncias sobre os caminhos para &#8222;um outro mundo possÃ­vel&#8220;, o prÃ³ximo FSM poderÃ¡ marcar uma virada histÃ³rica. Ele tem anunciado que &#8222;outro mundo é possÃ­vel&#8220;, mas sÃ³ conseguiu demonstrar essa possibilidade em casos espacialmente delimitados. Seu desafio, agora, é elaborar projetos de Ã¢mbito realmente global, coerentes com a nova consciÃªncia planetÃ¡ria que se difunde pelo mundo.</p>
<p>Se esta anÃ¡lise estÃ¡ correta, as medidas tomadas pelo governo Lula estáo na direçáo contrÃ¡ria Ã  busca de &#8222;outro mundo possÃ­vel&#8220;. O Banco Central náo sÃ³ manteve a elevada taxa de juros &#8211; que retira dinheiro da economia real para alimentar o jogo financeiro dos rentistas improdutivos &#8211; como o Brasil tomou junto ao FMI um empréstimo de US$30 bilhÃµes para assegurar que os ganhos financeiros aqui realizados retornem ao exterior. O &#8222;pacote&#8220; de medidas do governo para dar liquidez Ã  economia, é um paliativo incapaz de estancar a especulaçáo financeira e a fuga de divisas. A polÃ­tica macroeconÃ´mica de H. Meirelles segue igual ao que era antes da crise: ignora o fracasso da autorregulaçáo do mercado e continua apostando no futuro do sistema de mercado regido pela lÃ³gica do lucro e pelo produtivismo. A obsessáo por realizar superÃ¡vits primÃ¡rios (eufemismo que serve para camuflar o déficit fiscal provocado pelo serviço da dÃ­vida) continuarÃ¡ sangrando o Tesouro Nacional, que repassa a conta para quem de fato produz e paga impostos.</p>
<p>Além disso, o Presidente continua dando força ao agronegÃ³cio e Ã  mineraçáo, sem atentar para os danos que causam ao meio-ambiente. Tudo se passa como se o aumento da produçáo para a exportaçáo fosse uma soluçáo e náo um paliativo que adia a crise econÃ´mica mas antecipa a crise ecolÃ³gica &#8211; que é muito mais grave e que prejudicarÃ¡ mais os pobres do que os ricos. Também sua polÃ­tica industrial vai no sentido de favorecer a indÃºstria automobilÃ­stica &#8211; que continua produzindo carros de passeio como se eles tivessem aonde trafegar nas grandes cidades. Fazendo de conta que a crise é apenas financeira e que o capitalismo encontrarÃ¡ uma soluçáo tecnolÃ³gica para os problemas de energia e de meio-ambiente, Lula entregarÃ¡ a seu sucessor ou sucessora um paÃ­s em situaçáo táo precÃ¡ria quanto a que recebeu &#8211; com o agravante de um contexto mundial em recessáo e náo em crescimento, como teve em seus dois mandatos até dois meses atrÃ¡s.</p>
<p>Juiz de Fora, 13 de novembro de 2008.<br />
Notas:</p>
<p>(1) Artigo publicado em Carta Capital de 15/10/2008, p. 45.<br />
(2) Cfr. artigo de Marcio Pochmann, publicado no jornal Valor, 30-10-2008 e reproduzido por IHU-online.<br />
(3) Palestra feita em N. York, em 30/ outubro e reproduzida por ADITAL em 4/novembro.</p>
<p>* Professor da PUC-Minas e membro de ISER-Assessoria</p>
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